Acabo de vir da vendinha do seu Zé. Para minha tristeza, a vendinha não é mais do Seu Zé.
Fui comprar pão e leite. Da janela do apartamento eu sempre olho pra ver se a vendinha está aberta. Besteira minha por que ela sempre está. Seu Zé abre a vendinha religiosamente as 6h da manhã, de domingo à domingo.
É só descer alguns degraus, andar um pouquinho e chego lá na vendinha que parece ter parado no tempo. As sacas de feijão no chão, o queijo que é cortado na hora, miudezas expostas em um barbante preso por um prego na parede. Atrás do blacão um senhor sério, mas educado, carequinha (justo dizer que ele tem alguns fios brancos que resistem bravamente), dotado de uma facilidade em fazer contas matemáticas de cabeça (Impressionante! Não erra uma! Ainda tira o noves fora, coisa que nunca aprendi e que da última vez que o vi, disse que gostaria muito que ele me ensinasse).
Ano passado, ele ampliou a vendinha, sem mudar o estilo do negócio, que já está no bairro há muito tempo. Na época ele me disse que tinha resolvido investir pois pensava que dado o tempo que já estava lá, um dia, quem sabe, o locador poderia decidir vender o pontinho pra ele. Isso foi pouco antes da sua esposa falecer. Depois disso, a vendinha ganhou um certo ar triste. Seu Zé, num compasso mais lento, com aquela aliança enorme no dedo, além da dele. Ele era magrinho e a esposa bem forte. A aliança era segurada com um pouco de durex enrolado. Pensar em tirar ela dali, nem pensar. Na parede da venda um poster (o que tinha de mais sofisticado em todo o resto), com a foto da esposa e com uma frase de uma música conhecida "Amor igual ao teu eu nunca mais terei".
Hoje, eu entrei na vendinha. Diante das mudanças que estão acontecendo em minha vida, que não cabem ser comentadas mais ainda aqui ou agora, senti um certo conforto em ir comprar leite e pão no Seu Zé assim como em outros tempos. Decidi que ia dizer a ele que hoje era o dia dele me ensinar o tal do noves fora. Entrei na vendinha e me deparei com uma senhora atrás do balcão. A foto da mulher do seu Zé não estava mais na parede. Pensei com os meus botões: "O luto do seu Zé acabou! Tocou a vida pra frente! Encontrou outra pessoa pra dividir os dias! É assim que as coisas são!Peguei o pão, o leite e arrisquei a pergunta: Cadê o Seu Zé? A senhora me respondeu: "Seu Zé passou o ponto". Seu Zé foi embora??? Como? Porque? "Ele disse que de uns tempos pra cá estava cansado. Não via mais sentido ficar aqui, não. Passou o ponto."
Disse um "Ah!" desolado, entreguei o dinheiro e ela puxou a claculadora pra ver quanto teria que me dar de troco. Voltei arrastando o pão e o leite e um fio de tristeza.
As coisas mudaram mesmo!
Seja feliz Seu Zé!
OUTONO DE MIM MESMO
Há 3 dias
Nenhum comentário:
Postar um comentário